{"id":1363,"date":"2025-12-16T11:46:08","date_gmt":"2025-12-16T11:46:08","guid":{"rendered":"https:\/\/abanc.ao\/?p=1363"},"modified":"2026-06-18T15:01:15","modified_gmt":"2026-06-18T15:01:15","slug":"a-banca-e-o-estado-quando-o-unico-pescador-da-aldeia-e-tambem-quem-compra-todo-o-peixe-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abanc.ao\/?p=1363","title":{"rendered":"A Banca e o Estado: Quando o \u00fanico pescador da aldeia \u00e9 tamb\u00e9m quem compra todo o peixe"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-1\" id=\"w-node-b57f8eed-8f32-f03a-37a7-63a943a25dea-5d683527\">Do ponto de vista prospetivo, a solu\u00e7\u00e3o para reduzir o peso dos t\u00edtulos p\u00fablicos nos lucros da banca n\u00e3o passa por criticar os bancos. Passa por reformar a economia.<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"250\" src=\"https:\/\/abanc.ao\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-7.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1365\" srcset=\"https:\/\/abanc.ao\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-7.png 500w, https:\/\/abanc.ao\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-7-300x150.png 300w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-2 wp-block-paragraph\">O ano est\u00e1 a terminar, e com isso, volta a discuss\u00e3o sobre os resultados da banca, a origem dos lucros dos bancos, e a depend\u00eancia da banca dos t\u00edtulos p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-3 wp-block-paragraph\">Com a publica\u00e7\u00e3o das demonstra\u00e7\u00f5es financeiras, esta discuss\u00e3o tornar-se-\u00e1 ainda mais acesa e intensa, e em muitos casos, injusta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-4 wp-block-paragraph\">Nos \u00faltimos anos, consolidou-se a narrativa segundo a qual os bancos comerciais em Angola estariam excessivamente dependentes dos t\u00edtulos p\u00fablicos, beneficiando dos deficits p\u00fablicos, de um Estado endividado, e de uma economia privada em crise e incapaz de absorver o cr\u00e9dito produtivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-5 wp-block-paragraph\">Esta vis\u00e3o, repetida em c\u00edrculos pol\u00edticos, empresariais, medi\u00e1ticos e at\u00e9 acad\u00e9micos, \u00e9 sedutora pela sua simplicidade, mas imprecisa pela falta de rigor. O argumento sugere que os bancos escolhem \u201c<em>o caminho mais f\u00e1cil<\/em>\u201d, por isso investem em t\u00edtulos do Estado, em vez de concederem cr\u00e9dito ao sector privado, e da\u00ed obt\u00eam lucros desproporcionais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-6 wp-block-paragraph\">Mas esta an\u00e1lise ignora completamente a natureza estrutural da economia angolana, o desenho institucional dos mercados financeiros, o comportamento da poupan\u00e7a, o grau de risco do cr\u00e9dito privado e o seu impacto na conta de resultados dos bancos, e o papel inevit\u00e1vel que os bancos exercem no financiamento do Estado, num pa\u00eds sem um mercado de capitais com profundidade e liquidez, e onde n\u00e3o existem investidores institucionais com escala.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-7 wp-block-paragraph\">Para uma abordagem s\u00e9ria sobre a origem e estrutura dos resultados da banca, considero essencial impor o rigor t\u00e9cnico e devolver profundidade a um debate que tem sido reduzido a slogans. Angola tem desafios reais, como s\u00e3o a persist\u00eancia da depend\u00eancia petrol\u00edfera, a fraca diversifica\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, a informalidade elevada, a debilidade da governa\u00e7\u00e3o corporativa, a baixa poupan\u00e7a dom\u00e9stica e a aus\u00eancia de um mercado de capitais funcional, entre outros. Todos estes elementos moldam, limitam e condicionam o comportamento e desempenho dos bancos, pelo que \u00e9 imposs\u00edvel compreender os lucros da banca sem compreender o contexto econ\u00f3mico em que a banca opera.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-8 wp-block-paragraph\">A grande falha das cr\u00edticas \u00e0 banca \u00e9 presumir que os bancos angolanos funcionam num ambiente semelhante ao sul-africano, ao europeu, ou ainda a pa\u00edses africanos com uma estrutura e contexto econ\u00f3mico diferente do angolano, quando, na realidade, Angola possui uma estrutura e contexto de mercado que se assemelha mais \u00e0s economias emergentes exportadoras de mat\u00e9rias-primas, mono-exportadoras, e de baixa poupan\u00e7a, onde os bancos se tornam quase automaticamente o pilar do financiamento ao Estado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-9 wp-block-paragraph\">O peso elevado dos t\u00edtulos p\u00fablicos no balan\u00e7o dos bancos n\u00e3o surge apenas da apet\u00eancia e da rentabilidade, mas tamb\u00e9m por necessidade estrutural. O Estado angolano n\u00e3o disp\u00f5e de alternativas dom\u00e9sticas robustas de financiamento. Os investidores institucionais, constitu\u00eddos principalmente por fundos de investimento e fundos pens\u00f5es, s\u00e3o pequenos e residuais, as seguradoras t\u00eam balan\u00e7os diminutos, os particulares t\u00eam pouca poupan\u00e7a formal e o investimento estrangeiro de carteira \u00e9 praticamente inexistente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A grande falha das cr\u00edticas \u00e0 banca \u00e9 presumir que os bancos angolanos funcionam num ambiente semelhante ao sul-africano, ao europeu, ou ainda a pa\u00edses africanos com uma estrutura e contexto econ\u00f3mico diferente do angolano<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-10 wp-block-paragraph\">Por isso, a compra de t\u00edtulos p\u00fablicos pelo sector banc\u00e1rio \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o macroecon\u00f3mica que resulta da estrutura da economia angolana. E os bancos cumprem essa fun\u00e7\u00e3o porque, simplesmente, mais ningu\u00e9m o pode fazer.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-11 wp-block-paragraph\">Para uma observa\u00e7\u00e3o superficial, ou de quem observa de fora, ver que os t\u00edtulos p\u00fablicos representam cerca de um ter\u00e7o dos activos dos bancos angolanos pode parecer excessivo. Mas esta an\u00e1lise, por precipita\u00e7\u00e3o e superficialidade, n\u00e3o leva em conta a natureza estrutural da economia, pelo que, nesta perspetiva, o peso dos t\u00edtulos p\u00fablicos no balan\u00e7o e nos resultados dos bancos seriam sim excessivos. Se os mercados financeiros fossem profundos, a poupan\u00e7a privada elevada, o mercado de capitais l\u00edquido e existissem grandes investidores institucionais, o peso dos t\u00edtulos p\u00fablicos no balan\u00e7o dos bancos com certeza seria menor. N\u00e3o sendo esse o caso, a presen\u00e7a da d\u00edvida p\u00fablica no balan\u00e7o dos bancos n\u00e3o \u00e9 uma anomalia, \u00e9 a express\u00e3o natural de uma economia onde o Estado \u00e9 simultaneamente o maior agente econ\u00f3mico e o maior tomador de financiamento dom\u00e9stico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-12 wp-block-paragraph\">Sendo chamada \u00e0 li\u00e7a, a situa\u00e7\u00e3o angolana como um caso \u00fanico e anormal, \u00e9 \u00fatil observar Angola no contexto africano. \u00c9 comum ouvir-se que, em \u00c1frica, Angola tem&nbsp; o ou dos sistemas banc\u00e1rios mais dependentes da d\u00edvida p\u00fablica. Vejamos os dados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-13 wp-block-paragraph\">O Banco Mundial estima que, em 2023, 32,5% dos activos dos bancos angolanos estavam investidos em t\u00edtulos p\u00fablicos (dados do \u201cFinance for Prosperity 2024\u201d). A Deloitte Angola confirma que em 2024, essa propor\u00e7\u00e3o era de 32%.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-14 wp-block-paragraph\">Agora vejamos outros pa\u00edses africanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-15 wp-block-paragraph\">\u00b7&nbsp; &nbsp; &nbsp; No Uganda, segundo o FMI, os bancos detinham 28% dos activos em d\u00edvida soberana em 2022, acima dos 21% de 2019. Uganda est\u00e1 acima da mediana regional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-16 wp-block-paragraph\">\u00b7&nbsp; &nbsp; &nbsp; Na Z\u00e2mbia, o FMI contabiliza que os bancos possuem mais de 27% dos activos em treasury bills e bonds, equivalente a 240% do capital regulamentar. Esse \u00e9 um n\u00edvel de exposi\u00e7\u00e3o superior ao de Angola.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-17 wp-block-paragraph\">\u00b7&nbsp; &nbsp; &nbsp; No Qu\u00e9nia, um relat\u00f3rio da Kenya Bankers Association mostra que, entre 2015 e 2022, o peso dos t\u00edtulos p\u00fablicos no balan\u00e7o dos bancos subiu de 19% para mais de 30%.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-18 wp-block-paragraph\">\u00b7&nbsp; &nbsp; &nbsp; Na Rep\u00fablica do Congo (Congo-Brazzaville), os t\u00edtulos p\u00fablicos representam cerca de 32,5% dos activos dos bancos, praticamente igual a Angola.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-19 wp-block-paragraph\">\u00b7&nbsp; &nbsp; &nbsp; Na zona WAEMU (Benim, Togo, Senegal, Costa do Marfim, Burkina Faso, Mali, N\u00edger), os pesos variam entre 25% e 35%, segundo dados inclu\u00eddos no relat\u00f3rio do FMI sobre Uganda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-20 wp-block-paragraph\">\u00b7&nbsp; &nbsp; &nbsp; E relativamente \u00e0 \u00c1frica do Sul, um dos sistemas financeiros mais sofisticados do continente, o FMI documenta que os bancos mais pequenos t\u00eam cerca de 25% dos activos em t\u00edtulos soberanos, muito pr\u00f3ximos do limite inferior observado em Angola.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-21 wp-block-paragraph\">\u00b7&nbsp; &nbsp; &nbsp; E, num panorama mais amplo, o EIB (European Investment Bank) estima que a mediana africana de exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 d\u00edvida soberana passou de 10% para 17% dos activos, entre 2011 e 2022, com os pa\u00edses da \u00c1frica Ocidental e algumas economias petrol\u00edferas exibindo valores acima dos 30%.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-22 wp-block-paragraph\">Ou seja: Angola n\u00e3o \u00e9 uma anomalia em \u00c1frica. Angola est\u00e1 na faixa m\u00e9dia-alta, mas longe de ser o extremo. A elevada percentagem de t\u00edtulos p\u00fablicos no balan\u00e7o dos bancos \u00e9 um fen\u00f3meno comum em economias com mercados de capitais pouco desenvolvidos, baixa poupan\u00e7a institucional e elevada presen\u00e7a do Estado na economia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-23 wp-block-paragraph\">Este enquadramento comparativo \u00e9 crucial para desmontar a ideia de que os bancos angolanos \u201cpreferem\u201d financiar o Estado em vez do sector privado, mais do que os restantes bancos no continente. O que existe \u00e9 uma estrutura econ\u00f3mica que empurra os bancos nessa direc\u00e7\u00e3o: o Estado \u00e9 o \u00fanico tomador de cr\u00e9dito com escala, com capacidade de emiss\u00e3o cont\u00ednua, com risco regulat\u00f3rio reduzido e com instrumentos financeiros l\u00edquidos. O sector privado, por sua vez, oferece elevada incerteza, baixa capacidade de apresenta\u00e7\u00e3o de garantias, informalidade e fraca governa\u00e7\u00e3o. A prefer\u00eancia dos bancos por t\u00edtulos p\u00fablicos n\u00e3o \u00e9 uma escolha arbitr\u00e1ria, \u00e9 o resultado racional da intermedia\u00e7\u00e3o financeira num pa\u00eds onde o risco privado \u00e9 elevado e o retorno \u00e9 limitado por regula\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-24 wp-block-paragraph\">Esta realidade leva \u00e0 quest\u00e3o central: o lucro que os bancos obt\u00eam dos t\u00edtulos p\u00fablicos \u00e9 injusto ou excessivo? A resposta, sustentada numa an\u00e1lise t\u00e9cnica, \u00e9 n\u00e3o! Os t\u00edtulos p\u00fablicos oferecem juros que reflectem o risco soberano e o custo do financiamento do Estado. Mais importante: \u201co lucro\u201d obtido n\u00e3o est\u00e1 associado a risco zero. A instabilidade cambial, a volatilidade inflacion\u00e1ria, o risco soberano elevado e as din\u00e2micas de refinanciamento do Tesouro representam riscos reais para os bancos. Al\u00e9m disso, a compra de t\u00edtulos p\u00fablicos pelos bancos desempenha um papel vital na estabilidade macroecon\u00f3mica, pois, sem esse financiamento, o Estado teria de recorrer a financiamento externo mais caro, \u00e0 emiss\u00e3o monet\u00e1ria inflacion\u00e1ria ou a cortes abruptos na despesa que comprometeriam a economia real.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-25 wp-block-paragraph\">Um outro ponto frequentemente mal interpretado refere-se aos lucros cambiais. E come\u00e7a por um erro de an\u00e1lise, que \u00e9 o de considerar que os bancos fazem aplica\u00e7\u00f5es em cambiais. As transac\u00e7\u00f5es cambiais s\u00e3o opera\u00e7\u00f5es executadas por conta e ordem dos clientes, s\u00e3o opera\u00e7\u00f5es transacionais, n\u00e3o aplica\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-26 wp-block-paragraph\">Os cr\u00edticos argumentam que os bancos obt\u00eam lucros excessivos com opera\u00e7\u00f5es cambiais, mesmo quando os activos em moeda estrangeira t\u00eam peso relativamente reduzido no balan\u00e7o. O problema \u00e9 que esta perspectiva ignora a natureza da intermedia\u00e7\u00e3o cambial. Mesmo com posi\u00e7\u00f5es cambiais l\u00edquidas modestas, os bancos lidam diariamente com volumes elevados de compra e venda de divisas. Essa intermedia\u00e7\u00e3o, necess\u00e1ria num pa\u00eds em que mais 99% das exporta\u00e7\u00f5es s\u00e3o denominadas em d\u00f3lares, gera margens de trading naturalmente altas decorrentes da volatilidade da moeda e do spread de mercado. N\u00e3o se trata de uma \u201crenda injusta\u201d, mas de uma fun\u00e7\u00e3o cr\u00edtica num mercado que depende estruturalmente do petr\u00f3leo e do d\u00f3lar.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A prefer\u00eancia dos bancos por t\u00edtulos p\u00fablicos n\u00e3o \u00e9 uma escolha arbitr\u00e1ria, \u00e9 o resultado racional da intermedia\u00e7\u00e3o financeira num pa\u00eds onde o risco privado \u00e9 elevado e o retorno \u00e9 limitado por regula\u00e7\u00e3o<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-27 wp-block-paragraph\">Mas esta an\u00e1lise n\u00e3o estaria completa se n\u00e3o olh\u00e1ssemos tamb\u00e9m para o lado do cr\u00e9dito. Uma das particularidade e curiosidade \u00e9 o facto do cr\u00e9dito ao sector privado representar uma percentagem semelhante \u00e0 dos t\u00edtulos p\u00fablicos no total dos activos, mas contribuir muito menos para os lucros. Esta diferen\u00e7a levanta, aos olhos de muitos observadores, uma pergunta que parece \u00f3bvia: \u201cse o cr\u00e9dito pesa quase tanto quanto os t\u00edtulos p\u00fablicos no balan\u00e7o, por que raz\u00e3o n\u00e3o reflecte este peso nos resultados?\u201d. A resposta a esta pergunta \u00e9 fundamental e exige desmontar equ\u00edvocos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-28 wp-block-paragraph\"><em>Primeiro<\/em>: apesar do peso semelhante, as taxas de juro m\u00e9dias do cr\u00e9dito ao sector privado s\u00e3o estruturalmente mais baixas do que as taxas dos t\u00edtulos p\u00fablicos, por imposi\u00e7\u00e3o regulat\u00f3ria. Um exemplo ilustrativo desta imposi\u00e7\u00e3o \u00e9 o Aviso 10\/24, que limita a taxa m\u00e1xima de juro que os bancos podem cobrar a 7%. Esta limita\u00e7\u00e3o, inspirada por objectivos macroecon\u00f3micos e sociais, diversifica\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, comprime artificialmente as margens de cr\u00e9dito, n\u00e3o reflectindo nas taxas de juro do cr\u00e9dito o risco dos mutu\u00e1rios, algo que n\u00e3o ocorre nos t\u00edtulos p\u00fablicos, que s\u00e3o remunerados ao pre\u00e7o de mercado. Isso n\u00e3o quer dizer que o Estado pague juros \u201cdemasiado altos\u201d, mas sim que o sector privado paga juros \u201c demasiado baixos\u201d para o risco que tem, pois s\u00e3o administrativamente limitados.<em>&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-palette-color-2-color has-text-color has-link-color wp-elements-29 wp-block-paragraph\"><em>Segundo<\/em>: o cr\u00e9dito privado comporta riscos muito superiores ao risco soberano. Mesmo em pa\u00edses com risco soberano elevado, como por exemplo Angola, os t\u00edtulos do Tesouro t\u00eam pondera\u00e7\u00f5es de risco reduzidas e exigem imparidades m\u00ednimas, relativamente ao cr\u00e9dito privado. J\u00e1 o cr\u00e9dito privado obriga a que os bancos constituam imparidades elevadas, sobretudo num ambiente marcado por volatilidade cambial, informalidade, subcapitaliza\u00e7\u00e3o das empresas, baixa qualidade de garantias e dificuldades e morosidade na execu\u00e7\u00e3o das garantias. Uma parte relevante do cr\u00e9dito encontra-se em categorias de risco que exigem imparidades elevadas, reduzindo drasticamente a rentabilidade l\u00edquida da actividade credit\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-palette-color-2-color has-text-color has-link-color wp-elements-30 wp-block-paragraph\"><em>Terceiro<\/em>: existe ainda um peso n\u00e3o desprez\u00edvel de cr\u00e9dito vencido que n\u00e3o gera qualquer rendimento. Uma parte significativa do stock de cr\u00e9dito nos balan\u00e7os dos bancos \u00e9 improdutiva, seja por incumprimento, seja por reestrutura\u00e7\u00f5es, que implicam suspens\u00e3o do reconhecimento dos juros. Assim, mesmo que o peso total do cr\u00e9dito nos activos seja semelhante ao peso dos t\u00edtulos p\u00fablicos, a capacidade dos cr\u00e9ditos ao sector privado gerarem lucro \u00e9 muito inferior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-palette-color-2-color has-text-color has-link-color wp-elements-31 wp-block-paragraph\"><em>Quarto<\/em>: o crescimento do cr\u00e9dito n\u00e3o depende apenas da liquidez dos bancos. Depende, ainda de forma decisiva, da procura e da exist\u00eancia efectiva de projetos banc\u00e1veis. Este \u00e9 o ponto menos abordado e compreendido no debate p\u00fablico. Embora muito se fale do&nbsp;<em>crowding-out<\/em>&nbsp;dos t\u00edtulos p\u00fablicos em rela\u00e7\u00e3o ao cr\u00e9dito privado, os condicionamentos da concess\u00e3o de cr\u00e9dito indiciam que, mesmo que os bancos tivessem menos t\u00edtulos p\u00fablicos nos seus balan\u00e7os, isso n\u00e3o significaria mais cr\u00e9dito ao sector privado. A limita\u00e7\u00e3o ao cr\u00e9dito n\u00e3o surge dos balan\u00e7os banc\u00e1rios, mas dos constrangimentos do ambiente de neg\u00f3cio e das debilidades das empresas, em mat\u00e9rias como a governa\u00e7\u00e3o deficiente, a fraca transpar\u00eancia financeira, a informalidade, a insufici\u00eancia de capital pr\u00f3prio, a falta de garantias reais, a fr\u00e1gil capacidade de gest\u00e3o, a baixa produtividade e o risco elevado. O cr\u00e9dito s\u00f3 cresce quando existem projectos cred\u00edveis, e n\u00e3o simplesmente porque existe liquidez dispon\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A limita\u00e7\u00e3o ao cr\u00e9dito n\u00e3o surge dos balan\u00e7os banc\u00e1rios, mas dos constrangimentos do ambiente de neg\u00f3cio e das debilidades das empresas, em mat\u00e9rias como a governa\u00e7\u00e3o deficiente, a fraca transpar\u00eancia financeira<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-palette-color-2-color has-text-color has-link-color wp-elements-32 wp-block-paragraph\">Do ponto de vista prospectivo, a solu\u00e7\u00e3o para reduzir o peso dos t\u00edtulos p\u00fablicos nos lucros da banca n\u00e3o passa por criticar os bancos. Passa por reformar a economia: aumentar a poupan\u00e7a dom\u00e9stica, capitalizar os fundos de investimento e de pens\u00f5es, desenvolver o mercado de capitais, atrair investimento estrangeiro, melhorar a governa\u00e7\u00e3o empresarial, fortalecer o capital pr\u00f3prio das empresas e criar mecanismos de garantia p\u00fablica que reduzam o risco de cr\u00e9dito. S\u00f3 assim o cr\u00e9dito privado poder\u00e1 crescer de forma sustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-palette-color-2-color has-text-color has-link-color wp-elements-33 wp-block-paragraph\">Concluo com as seguintes notas:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-palette-color-2-color has-text-color has-link-color wp-elements-34 wp-block-paragraph\">\u00b7&nbsp; &nbsp; &nbsp; Os bancos angolanos n\u00e3o s\u00e3o culpados da estrutura da economia angolana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-palette-color-2-color has-text-color has-link-color wp-elements-35 wp-block-paragraph\">\u00b7&nbsp; &nbsp; &nbsp; A \u201c<em>depend\u00eancia<\/em>\u201d dos t\u00edtulos p\u00fablicos n\u00e3o \u00e9 sintoma de gan\u00e2ncia, mas da aus\u00eancia de alternativas estruturadas de financiamento p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-palette-color-2-color has-text-color has-link-color wp-elements-36 wp-block-paragraph\">\u00b7&nbsp; &nbsp; &nbsp; Os bancos respondem a incentivos racionais num contexto institucional que est\u00e1 por amadurecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-palette-color-2-color has-text-color has-link-color wp-elements-37 wp-block-paragraph\">\u00b7&nbsp; &nbsp; &nbsp; Os desafios para Angola n\u00e3o est\u00e3o s\u00f3 nos bancos, est\u00e3o tamb\u00e9m na economia, nas empresas, na poupan\u00e7a e no mercado de capitais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-palette-color-2-color has-text-color has-link-color wp-elements-38 wp-block-paragraph\">\u00b7 Reformar estes pilares \u00e9 a \u00fanica forma de mudar, no futuro, a composi\u00e7\u00e3o dos lucros banc\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#x200d;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>*(T\u00edtulo do artigo:&nbsp;<em>Uma met\u00e1fora para ilustrar que, numa economia sem investidores privados com escala, os bancos s\u00e3o inevitavelmente quem financia o Estado<\/em>)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>*Economista, PCA da Associa\u00e7\u00e3o Angolana de Bancos (ABANC)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do ponto de vista prospetivo, a solu\u00e7\u00e3o para reduzir o peso dos t\u00edtulos p\u00fablicos nos lucros da banca n\u00e3o passa por criticar os bancos. 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