{"id":1357,"date":"2026-02-13T11:26:31","date_gmt":"2026-02-13T11:26:31","guid":{"rendered":"https:\/\/abanc.ao\/?p=1357"},"modified":"2026-06-18T14:58:38","modified_gmt":"2026-06-18T14:58:38","slug":"credito-privado-e-banca-uma-nova-arquitetura-do-financiamento-ao-setor-produtivo-em-angola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abanc.ao\/?p=1357","title":{"rendered":"Cr\u00e9dito privado e banca | Uma nova arquitetura do financiamento ao setor produtivo em Angola"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-1 wp-block-paragraph\">M\u00e1rio Ferreira do Nascimento Presidente da ABANC<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-2 wp-block-paragraph\">CONVIDADO<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-3 wp-block-paragraph\">Angola enfrenta hoje um desafio estrutural que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas macroecon\u00f3mico, fiscal ou cambial, \u00e9 tamb\u00e9m financeiro. Overdadeiro bloqueio ao crescimento est\u00e1, cada vez mais, na forma como o financiamento chega, ou n\u00e3o chega, \u00e0 economia real, e principalmente \u00e0s PMEs. O pa\u00eds estabilizou, reformou o setor banc\u00e1rio, refor\u00e7ou a regula\u00e7\u00e3o e recuperou solv\u00eancia. Contudo, o cr\u00e9dito produtivo continua dif\u00edcil, curto, caro e, sobretudo, insuficiente para sustentar a diversifica\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-4 wp-block-paragraph\">\u00c9 neste vazio que surge uma nova realidade, o cr\u00e9dito privado. E a verdade que precisa de ser dita com clareza, evitando mal entendidos, \u00e9 que o cr\u00e9dito privado n\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a \u00e0 banca, \u00e9 antes de mais uma complementaridade ao cr\u00e9dito banc\u00e1rio e uma necessidade estrat\u00e9gica para o crescimento econ\u00f3mico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-5 wp-block-paragraph\">Durante anos, o sistema banc\u00e1rio angolano foi chamado a cumprir um papel essencial na estabilidade sist\u00e9mica: estabilizar, refor\u00e7ar capital, limpar balan\u00e7os e garantir solidez. Esse processo de reestrutura\u00e7\u00e3o do sistema banc\u00e1rio angolano iniciado ap\u00f3s a instabilidade financeira de 2017 foi bem-sucedido. Hoje, os bancos s\u00e3o mais robustos, mais prudentes, mais resilientes e mais regulados. Mas esse mesmo sucesso, criou uma consequ\u00eancia inevit\u00e1vel, que \u00e9 a menor capacidade para assumir riscos de longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-6 wp-block-paragraph\">N\u00e3o se trata de uma falha do sistema banc\u00e1rio. Trata-se, sim, de um efeito natural do sucesso das reformas prudenciais. Foram impostas aos bancos angolanos regras de capital mais exigentes, maior rigor na avalia\u00e7\u00e3o de riscos e a aplica\u00e7\u00e3o de normas internacionais, que tornaram o cr\u00e9dito mais seletivo. E numa economia como a angolana, com volatilidade hist\u00f3rica elevada, informalidade elevada e fragilidade nas garantias, essa seletividade traduziu-se numa conten\u00e7\u00e3o do financiamento ao setor produtivo. O resultado \u00e9 conhecido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-7 wp-block-paragraph\">Em Angola, assim como na quase totalidade da \u00c1frica subsariana, com excep\u00e7\u00e3o da \u00c1frica do Sul, o cr\u00e9dito ao setor privado ronda cerca de 25% do PIB, muito abaixo de outras regi\u00f5es, comparando com os cerca de 55% na Am\u00e9rica Latina, mais de 90% na Asia emergente e acima de 140% nas economias avan\u00e7adas. N\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de desenvolvimento financeiro, \u00e9 acima de tudo um desalinhamento entre o modelo banc\u00e1rio tradicional e as necessidades reais das economias africanas, que precisam de financiamento paciente e de m\u00e9dio e longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-8 wp-block-paragraph\">Em Angola, essa realidade \u00e9 ainda mais evidente. Segundo o BNA e o artigo IV do FMI, os bancos angolanos t\u00eam liquidez e solv\u00eancia adequadas, mas t\u00eam<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-9 wp-block-paragraph\">tamb\u00e9m uma avers\u00e3o, compreens\u00edvel, ao risco produtivo de longo prazo. Ao mesmo tempo, a estrutura de funding continua assente sobretudo em dep\u00f3sitos de curto prazo, incompat\u00edveis com investimentos industriais, agr\u00edcolas ou energ\u00e9ticos que maturam ao longo de anos. \u00c9 neste contexto que o cr\u00e9dito privado ganha relev\u00e2ncia estrat\u00e9gica. N\u00e3o como substituto da banca. Mas como complemento funcional ao financiamento ao setor produtivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-10 wp-block-paragraph\">Segundo o MSME Finance Gap Report do International Finance Corporation (IFC), o d\u00e9fice de financiamento das PMES em \u00c1frica ultrapassa os 330 mil milh\u00f5es USD. Esse n\u00famero n\u00e3o representa apenas falta de dinheiro. Representa acima de tudo a inadequa\u00e7\u00e3o dos instrumentos existentes face \u00e0 realidade das empresas africanas: pouca formaliza\u00e7\u00e3o, escassez de garantias, fluxos de caixa vol\u00e1teis e dificuldade de acesso a cr\u00e9dito tradicional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-11 wp-block-paragraph\">O cr\u00e9dito privado vem responder exatamente a esse problema, mas, ao contr\u00e1rio do cr\u00e9dito banc\u00e1rio, n\u00e3o financia apenas com base em garantias tradicionais, mas introduz outros elementos de avalia\u00e7\u00e3o com base na viabilidade econ\u00f3mica dos projetos. Usa estruturas mais flex\u00edveis, como financiamento baseado em fluxos de caixa, contratos de fornecimento, desembolsos faseados e instrumentos de financiamento h\u00edbridos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-12 wp-block-paragraph\">O cr\u00e9dito privado tem permitido financiar projetos de energia, agroind\u00fastria, log\u00edstica e ind\u00fastria transformadora em v\u00e1rios pa\u00edses africanos e, muitas vezes, projetos que foram recusados pela banca, n\u00e3o por falta de viabilidade econ\u00f3mica, mas por n\u00e3o se enquadrarem nos crit\u00e9rios prudenciais banc\u00e1rios. A li\u00e7\u00e3o que podemos retirar das v\u00e1rias experi\u00eancias em \u00c1frica \u00e9 que h\u00e1 espa\u00e7o para estes dois modelos de financiamento coexistirem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-13 wp-block-paragraph\">A banca continuar\u00e1 a ser o pilar da estabilidade financeira. E insubstitu\u00edvel na intermedia\u00e7\u00e3o baseada em dep\u00f3sitos, na transmiss\u00e3o da pol\u00edtica monet\u00e1ria, na gest\u00e3o de pagamentos e no cr\u00e9dito padronizado de curto e m\u00e9dio prazo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-14 wp-block-paragraph\">O cr\u00e9dito privado, por sua vez, ter\u00e1 um papel diferente. Ir\u00e1 assumir o risco produtivo de longo prazo, estruturar solu\u00e7\u00f5es sob medida e financiar setores estrat\u00e9gicos onde a banca, por raz\u00f5es prudenciais, n\u00e3o pode atuar com a mesma flexibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-15 wp-block-paragraph\">A conviv\u00eancia entre os dois modelos n\u00e3o \u00e9 apenas poss\u00edvel, ela \u00e9 desej\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-16 wp-block-paragraph\">Num modelo de financiamento h\u00edbrido, maduro e profundo, os bancos disponibilizam-se a cofinanciar projetos, estruturar opera\u00e7\u00f5es em conjunto, originar oportunidades, distribuir produtos e atuar como agentes financeiros. O cr\u00e9dito privado entra onde o risco \u00e9 maior e a maturidade \u00e9 mais longa; a banca entra onde a escala, a estabilidade e a padroniza\u00e7\u00e3o s\u00e3o essenciais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-17 wp-block-paragraph\">Mas essa conviv\u00eancia exige intelig\u00eancia regulat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-18 wp-block-paragraph\">Sem enquadramento e regulamenta\u00e7\u00e3o clara, podem surgir zonas de fric\u00e7\u00e3o: competi\u00e7\u00e3o pelos mesmos clientes corporativos, arbitragem regulat\u00f3ria, conflitos na estrutura de garantias e riscos de desintermedia\u00e7\u00e3o desordenada. Por\u00e9m a resposta n\u00e3o deve ser a de travar o cr\u00e9dito privado, mas integr\u00e1-lo com regras proporcionais, transparentes e adaptadas \u00e0 sua natureza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-19 wp-block-paragraph\">O Estado n\u00e3o pode nem deve estar alheio a este processo, pois tem aqui um papel determinante, ao criar mecanismos de garantia, melhorar o registo de ativos, promover fundos locais de cr\u00e9dito privado e atrair investidores institucionais. Estes s\u00e3o passos essenciais para reduzir o risco percebido e aumentar o financiamento produtivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-20 wp-block-paragraph\">A partir de 2026, a quest\u00e3o estrat\u00e9gica para Angola deixa de ser se o cr\u00e9dito privado vai crescer, porque ele vai crescer. Averdadeira quest\u00e3o \u00e9 se o pa\u00eds ser\u00e1 capaz de o integrar de forma inteligente na sua arquitetura financeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-21 wp-block-paragraph\">Porque o futuro do financiamento ao crescimento n\u00e3o ser\u00e1 banc\u00e1rio ou n\u00e3o banc\u00e1rio. Ser\u00e1 h\u00edbrido. A banca garantir\u00e1 estabilidade. O cr\u00e9dito privado trar\u00e1 capacidade de risco. E juntos poder\u00e3o financiar o que mais importa: a transforma\u00e7\u00e3o produtiva da economia angolana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-22 wp-block-paragraph\">Se Angola quiser diversificar, industrializar e criar emprego em escala, ter\u00e1 de aceitar uma evid\u00eancia simples e tecnicamente incontorn\u00e1vel: o crescimento sustentado exige mais canais de financiamento do que apenas o sistema banc\u00e1rio. O cr\u00e9dito privado n\u00e3o \u00e9 uma moda financeira. \u00c9 uma pe\u00e7a estrutural da pr\u00f3xima fase de desenvolvimento econ\u00f3mico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-23 wp-block-paragraph\">O cr\u00e9dito produtivo continua dif\u00edcil, curto, caro e insuficiente para sustentar a diversifica\u00e7\u00e3o O cr\u00e9dito privado n\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a \u00e0 banca, \u00e9 antes de mais uma complementaridade ao cr\u00e9dito banc\u00e1rio<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"780\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/abanc.ao\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-5-780x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1358\" srcset=\"https:\/\/abanc.ao\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-5-780x1024.png 780w, https:\/\/abanc.ao\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-5-228x300.png 228w, https:\/\/abanc.ao\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-5-768x1009.png 768w, https:\/\/abanc.ao\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-5-1170x1536.png 1170w, https:\/\/abanc.ao\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-5-1559x2048.png 1559w, https:\/\/abanc.ao\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-5-scaled.png 1949w\" sizes=\"(max-width: 780px) 100vw, 780px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1rio Ferreira do Nascimento Presidente da ABANC CONVIDADO Angola enfrenta hoje um desafio estrutural que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas macroecon\u00f3mico, fiscal ou cambial, \u00e9 tamb\u00e9m financeiro. 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